Como trabalhar com Design? – por Celso Podlasek

Passaram-se quatro anos, terminei meu curso, fiz alguns estágios e agora preciso saber: como vou conseguir trabalhar com Design? Essa dúvida deve deixar inquieta boa parte dos egressos dos cursos de Graduação em Design no Brasil.

Os caminhos lógicos são encontrar um emprego em uma empresa que possua um departamento de Design ou em uma agência prestadora de serviços na área ou aventurar-se em um empreendimento próprio. Essas três possibilidades são bem conhecidas por estudantes e profissionais, e não são diferentes das ofertas que outros profissionais possuem. O contraste está na quantidade de pessoas formadas em Design que acabam trabalhando em outras áreas por falta de oportunidades. O que falta para o Design deslanchar?

Essa pergunta eu tenho desde 1985, quando ingressei no curso técnico de Desenho Industrial. Já naquela época falava-se de regulamentação, políticas públicas de incentivo e conscientização de setores produtivos. Estamos em 2018; é verdade que muita coisa mudou e melhorou, mas a relação de pessoas que se formam em Design e pessoas que trabalham na área ainda é desigual.

Como docente de algumas instituições de Design no Sul do Brasil, recomendo para meus alunos que se dediquem em seus estudos, façam estágios, preparem seus portfólios e participem de concursos. Reconheço que todas essas orientações são válidas e aumentam as chances de emprego, mas nem sempre são suficientes.

Lembro-me que, no início do ano 2000, assisti a um programa na TV a cabo sobre Design na Alemanha. O interessante foi poder me deparar com um novo conceito de trabalhar com Design. Na reportagem, os sócios (dois designers) desenvolviam os projetos diretamente para o consumidor final. Não precisavam de um cliente que os contratassem como consultores ou funcionários. Atuavam como projetistas, executores e vendedores, utilizando conceituação e metodologia do Design. Os produtos não eram executados sob medida ou exclusivamente para uma pessoa; eram voltados para uma classe ou segmento, mas com uma produção limitada. Isso ampliava muito a demanda de trabalho, pois havia elementos de alto valor agregado em cada peça, o que despertava muito interesse nos consumidores. Foi a partir desse momento que encontrei o Design Autoral.

Confesso que, inicialmente, achei muito complexo e perigoso trabalhar assim, ainda mais por se tratar de um case em um país como a Alemanha, onde haviam diversos fatores que pareciam favorecer essa forma de atuação.

A ideia, por ora deixada de lado, sempre retornava em períodos cujo o empreendedorismo com Design surgia como a forma mais compensatória e livre de trabalhar. Por diversos motivos, comecei a observar mudanças no escopo técnico e tecnológico que vivemos. E, a partir dessas observações, comecei a desfazer a minha opinião sobre as dificuldades em se trabalhar com o Design Autoral.

A primeira e mais significativa mudança está nos hábitos de compras das pessoas. Até meados da década de 2000, as vendas no Brasil ocorriam essencialmente em lojas físicas e, para alcançar os consumidores, as empresas necessitavam estar presentes nesses locais. Isso gerava uma série de ações e mecanismos que tornava praticamente inviável um designer lançar seu produto de forma independente. As despesas para preparar catálogos, constituir equipe de vendas ou representantes comerciais, ações de mídia e propaganda, dentre outras, tornavam qualquer aspiração de Design Autoral um sonho pouco provável.

Mas atualmente, com o avanço do comércio eletrônico, essa realidade começou a se modificar. Em 2013, o comércio eletrônico representou entre 3,5 % e 4% de todas as vendas do varejo brasileiro. Em 2014, faturou 35,8 bilhões de reais, aumentando 15,3% as vendas em 2015, sendo o único segmento de vendas que não teve retração com as crises econômicas recentes (segundo dados do site de pesquisa em e-commerce E-bit).

Com esses números, não é difícil imaginar que os designers autorais podem contar com o e-commerce como a grande ferramenta de vendas de seus produtos, pois não necessitam de lojas físicas, podem atingir qualquer pessoa no país e no mundo, além de ser um canal direto com o consumidor, que, por meio da internet, poderá desenvolver uma via de interação muito fértil com seus trabalhos. Com um site, um blog ou uma loja virtual, em campanhas bem elaboradas em redes sociais, é possível atingir o público desejado com um investimento substancialmente menor do que no modo anterior.

O desenvolvimento tecnológico recente também trouxe melhorias para os setores de produção. As impressoras 3D e as máquinas CNC permitem a confecção de objetos de diversas formas, materiais e acabamentos. Isso possibilita que produções de objetos em pequena escala contenham elementos como metal e plástico sem a necessidade de moldes e matrizes. Também podemos salientar que alguns segmentos de produtos, como móveis, joias, metalurgia e cerâmica, nunca enfrentaram grandes obstáculos para a produção autoral, pois não necessitam de meios de produção intensivos para conquistar seus consumidores. Para esses casos, pequenas manufaturas são capazes de produzir objetos com alto valor agregado.

Obviamente, a proposta do Design Autoral não é competir em escala com grandes indústrias. Por se tratar de uma produção própria e intermitente, jamais a concorrência poderá ser pautada por valores obtidos no número de peças produzidas. O que deve ser explorado é a criatividade e a inovação para conseguir valores exclusivos e intangíveis de imitação para os produtos autorias.

Diferente do que possa parecer, o Design Autoral não é restrito para os profissionais ligados somente à área de produtos. Por seu caráter sistêmico, que se estende da criação ao comércio, é necessário um profissional (ou vários) mais dinâmico e que compreenda todas as fases de um produto.

O interessante é que nada do que foi descrito é essencialmente novo. Todos sabem que o e-commerce é uma possibilidade promissora em qualquer segmento de mercado. A produção de diversos bens de consumo não necessita de grandes máquinas ou processos para serem inovadores, e o mercado sempre é bem receptivo a novidades. O que falta é que os designers tomem consciência de suas possibilidades e competências, e utilizem o Design Autoral como uma via para conquistar seu mercado de trabalho.


Celso Podlasek é coordenador da Pós-Graduação em Design Autoral da Universidade Positivo, que capacita o designer a assumir todas as etapas de desenvolvimento, produção e venda.

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