Hackathon – Negócios Digitais – por Renato Buiatti

Sexta-feira, 19 de fevereiro, 20h45.

O primeiro grupo de pessoas chega. Minutos depois, mais um grupo e, finalmente, os dois grupos restantes. Eles não estão sozinhos. Trazem seus convidados.

O local mais parece uma dessas empresas descoladas do Vale do Silício e, tirando os aspectos geográficos, posso dizer que estamos, de fato, numa empresa daquela pequena faixa da Califórnia. O Ebanx, sediado em Curitiba, é uma startup de soluções para pagamentos on-line que trabalha com clientes como Spotify, Playstation, Uber, AliExpress, Facebook e Airbnb e é um daqueles lugares que passam uma energia diferente e que só pode ser compreendida por quem já esteve lá.

No grande salão que dá de frente para um mural grafitado, eu e uma pequena equipe de 5 pessoas, recepcionamos esse grupo de pouco mais de 20 pessoas. Não, não teremos uma balada VIP em um lugar descolado para um seleto grupo de convidados. O propósito tem, sim, a diversão como um dos seus fundamentos, mas, o que temos essa noite é um grupo de alunos da Pós-Graduação em Negócios Digitais para o primeiro dos 4 módulos do Projeto Experimental, um hackathon de 12 horas. Sim, 12 horas ininterruptas, contemplando a noite de sexta, madrugada e início da manhã de sábado (o hackathon foi finalizado, pontualmente, às 9h de sábado).

OBS: Para facilitar a compreensão, vou dividir esse texto em três momentos: os desafios, as soluções e, posteriormente, as considerações finais.

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Os 10 desafios

Uma ideia interessante, correto? Sim. E cheia de desafios, também. Listei 10 fatores que poderiam – e foram – encarados como obstáculos na realização desse trabalho:

  1. Apoio

Para que a ideia saísse do papel seria necessário apoio e adesão ao formato proposto. Teríamos que conseguir o aval da instituição de ensino e o ok dos alunos do curso para prosseguir com o evento hackathon.

  1. O local

A pergunta aqui era se o local do evento teria impacto no seu resultado e no envolvimento dos participantes e se isso era mesmo relevante ou se o universo acadêmico era o mais indicado para o cumprimento dos objetivos.

  1. A definição da equipe de trabalho

Tínhamos a opção de estruturar o evento dentro de casa ou contratar profissionais com essa expertise. Caso optássemos pela primeira alternativa, o problema seria o timing de cada uma das entregas que deveriam ser feitas no hackathon; já, no segundo caso, a preocupação era se a verba disponível seria suficiente para contratar essas pessoas.

  1. O risco de trabalhar com um pequeno grupo de pessoas

Considere que alguns desses eventos possuem a adesão de centenas de pessoas e um grande número de equipes – o que não aconteceria nessa proposta -, uma vez que a turma da pós é composta por apenas 14 alunos.

  1. A programação do evento

Possivelmente, o maior desafio de todos, porque qualquer deslize aqui e toda a proposta iria para o ralo. Como criar um equilíbrio entre ciclo de palestras, mentorias, desenvolvimento em equipes e dinâmicas e ainda fazer com isso atenuasse o cansaço dos participantes?

  1. As motivações

Saem as recompensas tradicionais – as premiações financeiras, a possibilidade de network e o reconhecimento para as equipes vencedoras – e entra a primeira fase de um Projeto Experimental,  dividido em outras três fases: “desenvolvimento de produto”, “modelo de negócios” e “técnicas e tecnologias aplicadas”. Sim, existe a motivação, mas ela não se equivale àquelas dos hackathons.

  1. Mobilização

Embora o formato de hackathon esteja difundido entre alunos de graduação, pessoas ligadas ao movimento das startups e novos empreendedores, o desafio seria mobilizar esse grupo de pessoas e fazer com que permanecessem engajadas por todo o período do evento-aula (12 horas ininterruptas).

  1. Período de execução do evento

Esse período de 12 horas pode ser considerado pequeno se comparado ao adotado em grande parte dos hackathons (até 54 horas), mas, leve em consideração que esse evento foi criado para alunos de uma pós-graduação na qual as aulas são trabalhadas em formatos de módulos, nas noites de sexta e manhãs e tardes de sábado e, lógico, com seus devidos intervalos.

  1. A validação das ideias

Como o hackathon seria realizado em apenas uma noite, as equipes teriam que validar suas ideias e propostas de produtos com pessoas que compõem o público-alvo durante a madrugada de sexta para sábado.

  1. Cansaço

O início do hackathon foi marcado para às 21h de uma sexta-feira por um motivo único: dar um espaço de tempo para que os alunos fossem até suas casas após o horário de trabalho e se preparassem para o evento. Todos trabalham e têm seus compromissos.

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As soluções para cada um dos desafios

  1. A coordenação geral de pós-graduação deu carta branca para a realização do evento, auxiliando, inclusive com ideias e contatos. Os alunos também compraram a ideia e se mostraram engajados com a proposta.
  1. É possível que eu levante uma polêmica com essa declaração, mas, estou certo que se esse hackathon fosse realizado em uma sala ou ambiente acadêmico qualquer, as chances de resultado satisfatório seriam reduzidas pela metade. O local escolhido – como dito acima – tem aquela áurea disruptiva e contestadora das startups.
  1. Mesmo com a opção de estruturar o evento internamente, esse foi um ponto que exigiu muita reflexão, conversa e negociações. O mais sensato foi passar o comando para uma equipe de profissionais com expertise – toda a programação do evento foi criada por profissionais da Ideia no Ar, uma startup curitibana que auxilia outras startups no desenvolvimento de seus modelos de negócios.
  1. Para resolver o problema do pequeno número de participantes do hackathon, a solução foi abrir um número limitado de vagas para que os alunos pudessem convidar amigos e pessoas que já haviam participado de hackathons. Com isso, facilitamos o processo de geração de ideias e de desenvolvimento das propostas de negócios.
  1. O tempo das palestras abordando as fases do hackathon foram reduzidas pela metade e os ciclos de desenvolvimento em equipe eram dinâmicos e com um acompanhamento constante dos mentores. O papel do facilitador foi fundamental para o resultado do evento, propondo atividades entre os ciclos de palestras e de desenvolvimento capazes de mobilizar as equipes e espantar o cansaço.
  1. Os alunos se envolveram de tal forma com o evento que era possível sentir toda a paixão e esforço para que suas propostas se concretizassem, tanto que a “moeda de troca” acabou ficando em segundo plano. Todos tinham consciência da importância da primeira fase do projeto para o desenvolvimento do trabalho de conclusão do curso e trabalharam em ritmo forte para o cumprimento desse objetivo.
  1. A mobilização foi automática e as equipes trabalharam em um ritmo frenético. Um dos fatores que considero como fundamentais para essa mobilização foi a programação do evento, que não dava tempo para que a distração tomasse conta. Foi tudo muito intenso.
  1. Confesso que senti alguma resistência inicial por parte dos alunos quando propus que ficássemos confinados por 12 horas em um ambiente, trabalhando como mouros no desenvolvimento da primeira fase de um projeto experimental de conclusão de curso, mas, quando essas mesmas pessoas se permitiram viver essa experiência imersiva, o que eu vi foram mais rostos satisfeitos que o contrário. Nenhum deles sentiu falta do modelo tradicional das aulas, posso afirmar.
  1. A validação das ideias exigiu muito jogo de cintura e um forte sentimento de pertencimento. Aqui, os alunos tiveram que entrar em contato com conhecidos e publicar suas ideias em grupos de redes sociais para pedir que os usuários dessem seu parecer sobre os problemas levantados e suas possíveis soluções. As equipes tiveram que se desdobrar para conseguir o número de participantes suficiente para validar suas pesquisas. E conseguiram.
  1. O cansaço foi superado, por mais que o esforço físico e intelectual tenham sido extremos. Os horários que senti como mais críticos foram no início da madrugada (por volta de 1h30, 2h) e o início da manhã (entre 5h30 e 7h), quando era visível que os alunos estavam sendo castigados pelo desgaste físico e mental.

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Considerações finais

Talvez a proposta não soe tão disruptiva se levarmos em consideração que o universo das startups está em franco crescimento no país e que, consequentemente, os eventos de programação – os hackathons – tenham se popularizado, mas, testar esse formato com um grupo de alunos foi recompensador. Para quem acompanhou as postagens em mídias sociais e a posterior interação com os alunos, fica claro que a iniciativa superou todas as expectativas.

Confira o vídeo do evento.

Renato Buiatti é coordenador da Pós-Graduação em Negócios Digitais da Universidade Positivo.


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