Herança Intrínseca – por Adriane Baldini

Micros e pequenas cervejarias brasileiras ganham força no cenário gastronômico, produzindo muitos estilos diferenciados (incluindo as alemãs) e com excelente nível de qualidade

A imigração alemã teve um papel fundamental na formação do Brasil, agregando conhecimento de for­ma grandiosa e memorável à cultura brasileira. Entre tudo o que herdamos deles e que faz parte do nosso cotidiano estão a língua, (já que algumas palavras germânicas fazem parte do vocabulário atual), a urbanização (visível por meio da arquitetura clássi­ca), os métodos rigorosos de processos industriais (e também de gestão familiar), o cultivo do trigo, a criação de suínos entre outros fatores influentes pro­vindos da cultura camponesa, na agricultura.

Mas não se pode deixar de citar, talvez, o mais no­bre fator que herdamos: a gastronomia. Dos diversos pratos típicos de inverno, ricos e substancialmente mais conhecidos estão o Brezel (também conhecido como pretzel, sendo um tipo de pão leve, assado em forma de nó, povilhado com sal ou gergelim, ótimo para acompanhar cervejas), Eintopf (guisado tradicional que leva legumes, batatas e carne, ou de boi ou porco, bastante consumido quando está muito frio), Schweinenbraten (prato que leva carne de porco assada, geralmente servido com repolho refogado ou com Sauerkraut, que nada mais é do que o repolho azedo fermentado, regado com uma cerveja pilsner), as clássicas e finas Costeletas de Vitela, Wurst (também conhecida como bratwurst, salsicha frita, feita de carne de porco moída e espe­ciarias), Eisbein (joelho de porco frito ou assado) e o clássico Hackepeter (carne crua bem temperada servida sobre um pão rústico; também é conhecido como Mett, quando feito com de carne de porco). Claro que não se pode deixar de citar as clássicas sobremesas Apfelstrudel (massa assada ou cozida recheada com maçãs e adoçada com açúcar, canela e passas) e a Schwarzwalder Kirschtorte (conhecido também como Bolo de Floresta Negra). Há, claro, muito mais a citar – sem se esquecer, jamais, da cerveja.

A bebida que inicialmente era produzida em casa pelos imigrantes alemães há mais de um século e foi trocada e massificada pela atual produção em série, voltou a ser destaque nas mesas dos brasileiros – principalmente na dos curitibanos, que podem en­contrar facilmente a cerveja artesanal em qualquer lugar da cidade.

Daniel Wolff, sommelier de cervejas e proprietário da Mestre­-Cervejeiro – local que vende cervejas especiais do mundo todo, diz que atualmente existem dois ti­pos de consumidores, “o primeiro deles é aquele que toma cerveja em qualquer ocasião, tendo fidelidade por uma marca preferida. O que ele quer é apenas beber cerveja gelada para relaxar, sendo este o per­fil das grandes cervejarias do país. Ele apenas bebe como costume, herdado de maneira intrínseca. Já o outro tipo de consumidor é bem mais exigente. Ele tem sempre o intuito de descobrir novas experiên­cias por meio da bebida, não sendo fiel à nenhuma marca, mas sim, das descobertas paliativas que a cerveja pode trazer. Esse consumidor busca, no fim das contas, um produto gourmet”.

No cenário nacional, o movi­mento cervejeiro, iniciado em meados de 2004 simultaneamente em diversos locais do país, com destaques no interior de São Paulo, Vale do Itajaí (SC), Porto Alegre (RS) e claro, em Curiti­ba, muitas delas surgiram com o auxílio de mestres cervejeiros – a maioria, de descendência alemã. “An­tigamente era obrigatória a passagem pela Alema­nha, sendo o país uma das escolas cervejeiras com maior índice de excelência do mundo”, explica Wol­ff. Segundo ele, muitos destes mestres cervejeiros estavam aposentados (ou fazendo cerveja em casa por hobby), quando foram convidados a voltar para o mercado. A maioria, adequada à forma de traba­lho das grandes indústrias cervejeiras, tiveram de se readaptar às micro – tanto em aprender novos esti­los, quanto na quantidade de fabricação. “Porém, o que trouxeram às escolas artesanais foi o padrão de qualidade aplicado nas grandes indústrias, fator fundamental que ajudou a alavancar as cervejas ar­tesanais”, diz.

Atualmente a maioria das cervejarias artesanais pos­sui cerca de 8 anos de existência, e juntas, fabri­cam centenas de novidades no universo cervejeiro brasileiro por ano. “A produção de cerveja artesanal representa apenas 1% diante do cenário nacional, mas seu consumo está se elevando a cada ano que passa, sendo este um nicho de consumo bastante promissor”, conclui Wolff.

 

Autoria de Adriane Baldini, especialista formada na PÓS UP em Gestão e Tecnologia da Cerveja.


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