O brado retumbante nas redes sociais

Ferramentas on-line propagam a voz do povo e têm papel fundamental na mudança do país

Em uma época em que muito se fala sobre política, a democratização da informação se destaca. A possibilidade de acesso às notícias em tempo real e com facilidade tem grande impacto na sociedade.

Aplicativos e sites oferecem uma nova maneira de participação na sociedade. Apenas um clique é capaz de facilitar os relacionamentos, promover interações intensas e diversificadas e manter o usuário informado sobre as mudanças no mundo, dentre muitas opções.

Essa mudança no acesso à informação foi vista claramente nos últimos dias, com as manifestações de rua no Brasil inteiro. A grande revolução da opinião pública agora está escancarada para quem quiser ver, por meio das redes sociais.

Na atividade política, esses meios de comunicação estão contribuindo para a construção – ou desconstrução – de imagens e disseminação de ideias. Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e Whatsapp são ferramentas articuladoras dos processos de manifestações e mobilizações no país.

A curitibana Capryci Johnson, de 28 anos, usou as redes sociais para se informar sobre os protestos na cidade. “Depois que terminei meu trabalho, comecei a ver o que os grupos de Whatsapp estavam comentando. Entrei no Facebook, fiquei horrorizada e fui para a frente da Justiça Federal protestar. Se não fossem esses meios de comunicação, eu iria demorar mais para saber o que estava acontecendo”, conta.

Leandro Karnal, pós-doutor em História, defende que a tecnologia é neutra. “A tecnologia é apenas um meio. A forma de utilizá-la é que faz a diferença. Por exemplo, a bomba atômica foi criada para cavar túneis, mas acabou matando milhares de pessoas”, explica o professor. “Assim são as redes sociais. É uma maneira revolucionária de se comunicar, mas pode ser usada para o bem ou para o mal”.

O historiador cita o escritor e filósofo Umberto Eco, que diz: “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade; redes sociais deram voz à legião de imbecis”.

Leandro Karnal concorda que a grande complicação das redes é a liberdade que as pessoas têm de postar o que desejam, sem nenhum filtro. “O problema é confundir dados com conhecimento. Ter acesso a diversos dados não é sinônimo de entendê-los. Como professor, eu deixo meus alunos checarem o Google em todas as aulas. O que eles fazem? Conferem se as datas que eu comentei estão certas. O que não basta para que realmente aprendam”, exemplifica.

Contudo, não se pode negar que a conectividade faz diferença na organização política. Com os últimos acontecimentos políticos, é fácil perceber o grande valor que as mídias sociais têm ao propagar notícias.

“O momento atual me remete à Primavera Árabe, que colocou em foco a importância das novas tecnologias no processo de libertação de povos oprimidos”, lembra Karnal. A Primavera Árabe foi uma onda de protestos no Oriente Médio em 2011, impulsionados pelas redes sociais. Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Iêmen e Barein tiveram seus governos questionados no episódio. Um estudo realizado pela Universidade de Washington analisou três milhões de tweets, centenas de vídeos no YouTube e várias publicações em blogs e concluiu que os conteúdos que incitavam à revolução eram mais comentados nos dias que antecediam cada protesto nos países envolvidos.

Todos os que postam nas redes devem ter consciência da importância da opinião compartilhada. Saber que ela pode influenciar diversas pessoas é essencial para o bom uso dos meios de comunicação. Mais do que isso, o que se lê ou vê na internet deve vir acompanhado de senso crítico. “A comunicação deve gerar o desenvolvimento. Por isso, não pode ser confundida com opinião: esta nunca está errada”, conclui Karnal.

02.10.15 - CPFL Cultura - Cafe Filosofico - Leandro Karnal Tatiana Ferro Fotografia

Leandro Karnal, autor, professor e historiador brasileiro.


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