Um novo olhar sobre a morte

O fim da vida não precisa ser de dor e desespero

“A morte confronta os nossos limites”. É o que diz a jornalista Eliane Brum ao acompanhar por alguns dias a rotina no 12º andar do Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo. Lá funciona uma enfermaria de cuidados paliativos, local que acolhe pacientes terminais para uma abordagem médica humanizada e compassiva. O objetivo é oferecer bem-estar para quem está cara a cara com a morte – um dos fenômenos mais perturbadores para o homem.

Desde o surgimento das primeiras civilizações, a proximidade da morte causa ansiedade. “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido”, escreveu certa vez o norte-americano H. P. Lovecraft, ícone da literatura de horror. Sabe-se que povos pré-históricos já se preocupavam com o território desconhecido da morte. Em algumas sociedades, os mortos eram cobertos por pedras para evitar que o cadáver retornasse ao mundo dos vivos ou se transformasse em alimento para os animais.

A dimensão imaterial da morte desperta também outras emoções, como encanto e curiosidade. Na sociedade do antigo Egito, por exemplo, acreditava-se que após a morte o indivíduo prosseguia em uma nova existência, na qual ele empreenderia uma busca pela vida eterna. Essa jornada era preparada na existência física, aqui na Terra, com rituais místicos, feitiçarias e procedimentos que ainda hoje fascinam. Por séculos, as múmias simbolizaram o fim de uma vida e o início de outra.

De lá para cá, a relação com a morte mudou, mas ela ainda é permeada por angústia. O desenvolvimento do capitalismo e, com ele, as crises nos modelos econômicos provocaram o repensar da vida e outra crise mais profunda – a existencial: “A vida é só isso?”. A morte, portanto, muitas vezes associada a dor e desespero, passou a ser encarada como experiência do vazio. Lidar com ela, mais do que nunca, requer um entendimento mais elevado da essência humana.

Os cuidados paliativos surgem como um conjunto de práticas que vai ao encontro disso. Segundo o farmacêutico João Luiz Coelho Ribas, coordenador do curso de Pós-Graduação em Oncologia e Cuidados Paliativos da Universidade Positivo, esse segmento conta com profissionais multidisciplinares, que não apenas cuidam do paciente, mas também acolhem os familiares. Diante de uma doença que ameaça a vida, eles trabalham na prevenção e alívio do sofrimento e no tratamento dos sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais – sem a aplicação de métodos invasivos.

“Os cuidados paliativos devem incluir estudos para se descobrir a melhor forma de tratar o paciente, atentando-se aos sintomas e à evolução da doença”, avalia Ribas. No Hospital do Servidor Público Estadual, onde Eliane Brum fez suas pesquisas, a enfermaria conta com dez leitos, sempre ocupados. Diferentemente dos hospitais tradicionais, ali são concedidas algumas “mordomias”, como alimentação saborosa e sem restrições. Locais que prestam esses serviços são espaços que transformam a morte em uma amiga e tornam a experiência de fim saudável e até prazerosa.

Os cuidados paliativos correspondem a uma das formas de tratamento exploradas pela Oncologia, a ciência que estuda os tumores. O crescimento desordenado de células – conhecido como câncer – provoca, a cada ano, 7,6 milhões de mortes ao redor do mundo. É o exemplo concreto de doença que conduz a uma nova compreensão sobre a morte, ocasião que não precisa estar vinculada a aflições e desesperança.

Tradições espirituais do oriente e práticas de sabedoria cultivadas há milênios apontam para a existência de uma dimensão misteriosa da vida, cuja descoberta tem o poder de transcender dor, sofrimento, doença e morte. Iogues que dedicam suas vidas à meditação ensinam que o autoconhecimento é o caminho para acessar regiões sutis da verdadeira natureza do ser – serena, imutável e eterna. Em última instância, a morte não existe. E o despertar da consciência produz essa liberdade de fazer as pazes com o desconhecido.


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